Uns anos depois, você já está mais crescido, talvez já tenha até encontrado A pessoa da sua vida, já mudou várias vezes de opinião sobre tudo. Se acha muito maduro: tem seu próprio emprego, sua casa, ganha seu dinheiro e gasta do jeito que quiser. Vai aonde quer, com quem quer e quando quer.
Um dia, você presta atenção aos irmãos mais novos de seus amigos. Adolescentes. Vê que eles passam pelas mesmíssimas coisas que você passava na sua época. E pensa "que bobagem! Ainda bem que a gente cresce e deixa isso tudo para trás". Você é um adulto bem resolvido agora!
Você só não esperava voltar, um dia, a ter 15 anos. Novamente, as coisas ganham uma proporção muito maior do que têm realmente. As sensações se multiplicam e você quase se sufoca! Frio na barriga, medo (de quê mesmo?), pensamentos como uma panelada de sopa fervendo! Você quer falar, mas não encontra as palavras; quer chorar, mas por quê? Quer sumir, mas o chão não abre, quer esquecer, mas como, se a questão está ali?! Quer diminuir ainda mais, até caber em algum colo quente e confortável. Da mãe, do pai, dA pessoa...
Voltar no tempo assim não é coisa que aconteça toda hora. É necessária uma situação que teste seus limites: da paciência, da capacidade de decisão, da concentração, do controle emocional. Mas o que incomoda mesmo, nesse caso, não é a situação em si, que exige tudo o que você pode - e algumas coisas que você não pode - dar. O problema é ter quinze anos quando ela chega! Onde foi parar aquela pessoa auto-confiante, cheia de si, que fala tudo o que precisa quando precisa? Onde foram parar as palavras, a voz?
Do lado de dentro de você, uma barulheira sem fim! Alguém grita "FALE ISSO", "FAÇA AQUILO", "NÃO PENSE NISSO AGORA", "DECIDA-SE", "CRESÇA"! E você lá, gaguejando... De um jeito ou de outro, a hora passa, você dá um jeito nas coisas, vai para casa. No dia seguinte está até mais leve. É estranha essa serenidade depois do caos de pouco tempo antes. Aí vem também o inevitável "será que precisava daquilo tudo? As coisas funcionam agora... será que não bastava ter esperado a crise passar?" São os resquícios de ter voltado aos 15 anos ainda se manifestando, como o dia seguinte a um ataque de enxaqueca.
Quando todos os sintomas passam, e você volta a ter emocionalmente sua idade cronológica, percebe que tinha que ter sido assim. Nada ia passar se você ficasse sentado esperando, as coisas não iam se resolver, você não ia ficar tranqüilo. E, além do mais, ia ficar arrependido de não ter tomado providências quando podia. No final, se dá conta que só fez tudo do jeito que fez graças à inconseqüência típica dos adolescentes. Enfim, benditos 15 anos.
Para quem junta aquele monte de coisinhas em seus armários físicos, mentais, sentimentais. E para organizar meu próprio armário, que guarda mais e mais coisas a cada dia.
terça-feira, 24 de junho de 2008
Quinze aos 23
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Hoje
Hoje acordei doendo. Mas um pouquinho só. Uma dorzinha sem lugar, aquela dorzinha sem lugar. O dia está nublado, um friozinho... eletricidade estática no ar, pressão atmosférica baixa, minha libido – no sentido amplo, da energia vital – também. As nuvens são completamente diferentes daquelas, mas foram suficientes. Ouvi uma música no rádio. Era diferente, mas também bastou.
O tempo começou, lá pelo meio da manhã, a chover em mim. É uma chuvinha fina, que não molha, mas que entra pelo corpo e chega nos ossos. E em mim, chove dentro. Em algum lugar atrás-sobre-dentro do buraco na minha barriga, perto do estômago.
Uma vontade de ficar pequenininha... de ficar amuadinha, encolhidinha, invisivelzinha e quietinha. Mas não dá. O mundo é agora, como já me falaram, e ele não vai me permitir esse capricho. A aula que não aconteceu urge, comprar uma impressora urge, o estágio urge e eu tenho que atender. Tenho? É, acho que tenho...
Normalmente quero mais: mais tempo, mais dinheiro, mais diversão, mais um monte de coisas. Não estranhamente, agora quero menos. Menos lembrar, menos memórias, menos reviver as coisas mentalmente incessantemente, menos recaídas, menos momentos na cabeça, menos associar, menos.
A dorzinha, identifiquei no carro, é dor de quem-quando-onde-como. Em condições climáticas – de dentro e de fora – adequadas, ela condensa e faz cair a chuva aqui. Quero ir à farmácia e pedir:
- Moço, remédio para aquela dorzinha. Uso externo ou comprimido, até injeção. Tem?
Dorzinha sem-remédio, então. Mais uma vez, dar tempo ao tempo. Dor de quem-quando-onde-como faz parte de uma síndrome, acho. Em alguns dias os sintomas estão mais brandos, em outros...
Engraçado como está tudo apertado hoje. A sala está tão apertada e a moça da limpeza, enorme. Me aperta no cantinho, e eu diminuo. O carro, apertado, o trânsito. Apertadas as minhas roupas. É o buraco por onde transita a chuva... aperta o coração e o resto.
Quero-preciso let go.
Ai, saudade bandida.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Mudernidade...
Daqui a pouco, entra pela porta de vidro um garoto que, pelos meus cálculos, devia ter cerca de oito ou nove anos. Me pareceu muito despachado. Chegou até a beirada do caixa onde eu estava e pediu informação:
- Moça, tem fita pra câmera?
- Que fita? Para qual câmera?
- Aquela fita... pra câmera assim, de tirar foto!
Santa modernidade! Criança que cresce vendo a foto que acabou de ser tirada na máquina digital não sabe nem que a "fita pra câmera de tirar foto" chama-se filme!
sexta-feira, 14 de março de 2008
sexta-feira, 7 de março de 2008
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Resgatando...
Ele foi publicado na Carpe Diem, revista cultural que fazíamos aos trancos e barrancos, e agora o resgato para cá.
Lembrando que a história é verídica!
Tim Maia (virou) meu amigo
“Você é algo assim/ é tudo pra mim/ é como eu sonhava, baby”
O tempo passa, a sociedade evolui e, ano após ano, por volta dos meses de maio e junho, escutamos esses mesmos versos em alguma campanha publicitária, seja ela de Dia das Mães ou de Dia dos Namorados. Quem quiser que chame de brega, mas para mim ainda é música e poesia de muito boa qualidade, originalmente cantada por uma das vozes mais intensas da música brasileira.
Com uma vida tão intensa quanto sua própria voz, Sebastião Rodrigues Maia, nacionalmente conhecido como Tim Maia, foi um grande personagem, também famoso por sua máxima “Mais grave, mais agudo, mais eco, mais retorno, mais tudo!” (que, aliás, são as primeiras palavras do livro Noites Tropicais, de Nelson Motta). Ele era uma figura peculiar no mundo da música: um homenzarrão gordo, negro, espontâneo, que chamava até mesmo seus amigos mais íntimos por nome e sobrenome! E, além disso, era o único a poder oferecer entorpecente (mais especificamente, LSD) ao diretor da gravadora sem ser levado preso, nem sequer demitido!Tendo vivido muitos anos em bairros pobres dos Estados Unidos e lá conhecendo a música soul, fez muito sucesso no Brasil dos anos 80 com as famosas “Primavera” e “Azul da cor do mar”. E é nesse ponto que entro eu na história!
Sendo eu nascida em 1984, era muito pequena quando Tim Maia fazia sucesso. Em minha casa, porém, quando meus pais não estavam trabalhando, sempre se ouvia a voz grave de Tim (e talvez por isso até hoje suas músicas me lembrem manhãs de sábado e de domingo) que, por sinal, sempre me agradou muito. E eu gostava tanto dele que, por um certo tempo em minha vida, meu amigo imaginário era ninguém menos que Tim Maia! Desenvolvemos uma relação tão forte que ele almoçava comigo, brincávamos juntos e, à tardinha, quando minha avó ia me dar banho, era preciso esperar que ele tomasse primeiro! Lanche da tarde e prato do almoço, era um para mim, e outro para Tim Maia! E eu, com minha inocência pueril, perguntava à minha família sempre que o via na tv: “Ele não é bonitinho?” esperando, claro, uma resposta afirmativa. Mas eu cresci, e Tim Maia aos poucos foi se despedindo de mim, até virar o que hoje meus pais contam de nossa amizade.
O verdadeiro Tim Maia morreu em 1998, sem nem desconfiar que tinha sido amigo de uma menininha de três anos de idade, e muito antes que eu pudesse lhe contar, mas deixou como lembrança mais que seus discos com sua “voz de trovão” (como diria outro amigo seu).