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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

#MemeDasAntigas – Meu pior dia de 2011

 
13 de novembro de 2011. Ele havia marcado de ir na minha casa buscar o restante das coisas dele que ainda estavam lá. A televisão que ele tinha comprado pra gente, o home theatre, algumas roupas, coisas da moto... Não que esse dia tivesse chegado como uma total surpresa. Aliás, o dia 13 foi, na verdade, o desfecho de uma tragédia anunciada.

O primeiro sinal veio quando, depois de voltar de viagem, encontrei ele cheio de dúvidas e inseguranças, querendo dar um tempo. Tantas tinham sido as nossas tentativas sem sucesso de nos acertar e de aparar as arestas que concordei que valeria a pena tentarmos mais isso. Mas ele mudou de ideia. Depois eu mudei de ideia e, no meio de tantos desencontros, o que se desencontrou foram os interesses. Durante o tempo que demos, percebemos que não estávamos mais nos fazendo felizes, por mais que passássemos ótimos momentos juntos e que sentíssemos um carinho infinito pelo outro. Mas, de repente, não conseguíamos mais atender às expectativas que tínhamos. De repente, não era mais suficiente. 

Ele chegou e, antes de começar a recolher os pertences, começamos a conversar. Ele sentado em um sofá, eu no outro. Que estranha aquela falta de intimidade com alguém que, semanas antes, dividia comigo a cama, o copinho das escovas de dentes, as compras do supermercado, a vida. Que vazio.

Foi ele quem começou a falar. Me disse um monte de coisas de cuja conclusão foi “é melhor a gente terminar esse namoro”. Concordei. Concordei com tudo e com a conclusão também. O que mais me doeu foi que, depois de anos, estávamos enfim de acordo sobre alguma coisa: era melhor terminar aquele namoro.

Racional como sou, achei que as coisas fossem ser mais fáceis. Achei que a dor fosse ser menor. Achei que, sabendo que estávamos fazendo o melhor para nós dois, fosse conseguir lidar com mais facilidade. Mas quando atinei, estava com a cara inchada de tanto chorar, nariz entupido, cabeça doendo. Não acompanhei ele até a garagem. Ajudei a carregar as coisas até o elevador, fechei a porta e abracei o Otelo. Falei pra ele que “agora somos só você e eu, viu, preto”. Terminei o dia cortada ao meio.


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PS: Dividi o post de hoje do Meme das Antigas (que, originalmente, era o melhor e o pior dia de 2011) porque, por não ter falado desse assunto antes, achei que ele merecia um tratamento especial e, colocá-lo junto com o melhor dia tornaria o post muito longo. Além disso, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. :)



PPS: Mais detalhes sobre o Meme e os temas futuros, junto com as datas, no blog do Max (é só clicar na imagem no início do post).

domingo, 13 de novembro de 2011

It Might Be You (ou Todos os Domingos da Minha Vida)

“Wondering how they met and what makes it last
If I found the place
Would I recognize the face?
Something's telling me it might be you
Yeah, it's telling me it might be you”

Ele vinha cantarolando a caminho de casa no domingo, já quase hora do almoço. Já estava na casa dos 70. Já não tinha mais a cabeleira que costumava usar. Na verdade, os poucos cabelos que restavam, na lateral e parte de trás da cabeça, estavam quase todos brancos. Também estava branca a barba, comprida. Continuava magro. E não abandonava a camisa xadrez de azul e branco, a calça jeans desbotada e o tênis.

Em uma mão, tinha uma sacola retornável e na outra segurava o celular. Era o celular que prendia sua atenção enquanto caminhava e cantava – bem afinadinho, apesar de não se esforçar para tal. Na telinha pequena, o envelopinho mostrava que havia recebido mensagem. Era ela, perguntando se ele já estava chegando com a batata palha e a gelatina sem sabor.

Cantarolando e respondendo à mensagem (“já saí da padaria. Por que, quer que volte para mais alguma coisa?”), pensou em quem estava em casa à espera. Ela, os três filhos – 35, 31 e 28, respectivamente – e os netos. Ele tinha netos! Três! Mas a caçula ainda morava em casa – “o dia que ela sair...”, pensou com uma pontinha de pesar. Será que eles já haviam chegado ou ela o estava apressando à toa?

Uma coisa leva à outra e ele se lembrou de coisas de mais de quarenta anos atrás. Ela não era a mais bonita. Nem a mais popular. Nem a família dela tinha dinheiro. Mas que inteligência! Que senso de humor! Que cabeça moderna para os anos ’50! Todas aquelas ideias sobre a igualdade entre os sexos, sobre a independência feminina, sobre vivermos do jeito que quisermos e não do jeito que esperam que vivamos. Era feminista, ora essa! E ele adorava. Nunca havia conhecido uma mulher tão decidida, tão confiante, tão divertida. Foi impossível não se apaixonar por tudo aquilo.

Também foi difícil aprender a conviver com tudo aquilo. Foi difícil aceitar que algumas tarefas da casa seriam dele; difícil aceitar que, sim, ela continuaria dando suas aulas; muito difícil aceitar ter tido que esperar até os 38 anos de idade para o primeiro filho, já que ela ainda queria terminar o mestrado antes de ser mãe. Mas cada aprendizado era um laço a mais que se atava entre os dois. Cada obstáculo vencido indicava que estavam fazendo um bom trabalho na empreitada que escolheram de ser uma família.

Ainda cantarolando, chegou em casa. O filho do meio já havia chegado com a esposa. A caçula – era a cópia da mãe! – terminava o livro em que estivera agarrada nos últimos dois dias. Ela – esposa, mãe, mulher, pessoa complexa mas de desejos simples – apareceu na porta da cozinha e olhou para ele por trás dos óculos com aquele ar apressado de sempre. “Traz a gelatina aqui, senão essa mousse não vai endurecer!”

Levou a sacola até a cozinha. Olhou em volta. Sentiu o cheiro da casa, das suas coisas, da sua vida. Reconheceu toda a sua história naqueles segundos. Provou um sentimento de pertença que não sabia o que era desde as lutas contra a ditadura na juventude. Olhou para ela e teve certeza, mais uma vez, de suas escolhas.

“Something’s telling me it might be you
Yeah, it’s telling me it might be you
All of my life”