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quinta-feira, 14 de junho de 2012

O que eu quero é sossego


Tenho vivido dentro de uma máquina de lavar, em um programa de lavagem extenso, para roupas muito sujas. Tem uns respiros no meio do caminho, claro. Alguns momentos em que consigo colocar a cabeça para fora e ver que o dia está ensolarado e a secagem vai ser rápida. Mas a verdade é que todo esse processo às vezes dá uma canseira… E aí, tudo o que eu quero é serenidade. Paz de espírito. Férias emocionais.


Meus amigos. Discos e livros. E nada mais.
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Talita

No ônibus para o trabalho, uma garotinha sentada à minha frente pedia para a mãe ler o que estava escrito no cartelete do projeto Leitura para Todos. A mãe, sem paciência, preferiu dormir a ler para a menina, que não se deu por vencida e ficou brincando com o cartaz mesmo assim.

Eu peguei meu livro – Jane Eyre, da Charlotte Bronte – e continuei minha leitura, enquanto ouvia as músicas que tinha colocado no iPod ontem. A menina do banco da frente se ajoelhou no assento e colocou a mãozinha sobre o meu livro, examinando as ilustrações da capa. Olhei para ela e ela riu um sorriso sapeca e sem dois dentes recém-caídos. Sorri de volta. Essa foi a senha de que ela precisava para começar o diálogo.

- Posso ver?

- O que você quer ver?, perguntei virando o interior do livro para ela.

- Quem é este? – ela me perguntou, apontando para uma ilustração

- Ele se chama Senhor Rochester.

- Posso ver seu livro?

Marquei a página que estava lendo e emprestei o livro para a menininha, que o folheou todo, muito interessada. Quando terminou de ver, me devolveu e voltei a conversar com ela. Se chama Talita, tem seis anos, gosta de brincar de boneca – sua preferida sendo a Júlia, que fala “Mamãe” e “papá” – e está no primeiro ano da escola, apesar de agora “estar de férias, né!” Ainda não sabe ler.

Talita ficou curiosa para saber o que eu estava ouvindo. Dei um lado do fone de ouvido para ela, que ouviu só uns quatro ou cinco acordes antes de exclamar um “Que lindo!”

- Ele se chama Louis Armstrong – expliquei vendo aquele sorrisinho faltando dentes.

Ela ficou encantada. Pegou o outro lado do fone de ouvido, que estava solto no meu pescoço, e colocou na orelha. Apreciou um pouco mais a música e me devolveu um lado do fone, para que eu pudesse ouvir aquela beleza também. Voltou a se sentar em seu banco, a Talita, com meu fone em seu ouvido. Não tive coragem de privá-la daquele prazer – até porque, um gosto por Louis Armstrong tem que ser incentivado – e fiquei sentada na beiradinha do meu banco, para que o fio do fone chegasse até ela.

Enquanto Talita ouvia música e fazia desenhos imaginários no vidro do ônibus, reparei que parecia ser uma menina pobrinha. Mulatinha, de olhos meio puxados, estava bem descabelada e com os cabelos sarará – como eu tinha quando era pequena! – presos sem cuidado em um coque no alto da cabeça. Imaginei que haviam sido presos com a mesma paciência com que a mãe lhe havia lido o cartaz do Leitura para Todos – nenhuma. As unhas tinham um resto de esmalte. Aliás, de dois esmaltes, um preto e outro vermelho. E também tinha uns machucadinhos pelo rosto. Senti uma vontade de colocar Talita no meu colo e apresentar a ela muitas outras coisas bonitas: pinturas, outras músicas, filmes, levá-la a uma orquestra.

Chegou o centro da cidade e a mãe de Talita se levantou para descer. Percebi que foi sofrido para ela se separar de Louis Armstrong, com aquele seu vozeirão bonito e seu trompete açucarado. Talita saiu correndo do banco no último momento, vendo que sua mãe já estava descendo do ônibus e ela ia ficando para trás. “Tchau, Talita!” – falei enquanto ela ia saindo. Pequenininha, se espremeu entre as pessoas em pé e pulou do ônibus que já ia começando a andar de novo. 

Recoloquei os fones de ouvido, reabri o livro e ouvi lá de longe:

- TCHAU, RAQUEEELL!!!

Olhei para fora e vi Talita abanando a mãozinha lá da calçada, com seu sorriso incompleto. Segui o caminho sentindo amor por Talita. Torci para que ela ainda tenha outros contatos com Louis Armstrong, e também com Ella Fitzgerald, Cole Porter, Miles Davis e todos os outros bons músicos deste mundo. Desejei saber o que será de Talita daqui a 20 anos – e desejo, com toda a força, que ela tenha um futuro brilhante, que não perca o interesse pelos livros e que não deixe morrer esse gosto refinado que já tem. Talita hoje tornou meu dia muito mais bonito. Mas o que me deixa feliz de verdade é saber que pude retribuir isso a ela.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Com fé eu vou

Dia desses fiz aniversário. Precisamente quatro dias atrás. E aí que, nos 26 anos anteriores, eu nunca tinha tido um inferno astral de que me lembrasse. Tirando uma média, não consigo lembrar de um período realmente shitty da vida, principalmente de um que antecedesse o meu aniversário. Mas o Destino, todo mundo sabe, é um fanfarrão. E resolveu tirar a diferença às vésperas do meu 27º aniversário (coincidência ou não, aquela idade crítica, em que um monte de gente talentosa morre. Eu, talentosa, ando por aí carregando patuá até 25 de novembro do ano que vem). Desde junho que eu estava com uma zica que vou te contar: batemos o carro alugado na viagem de férias, perdi sacolas de compras, fui demitida, terminei namoro...

Cheguei ao dia do meu aniversário achando que não tinha nada para comemorar. Não fosse a Sula, nem teria lembrado que nossa data de nascimento marca o fim do inferno astral (que normalmente começa um mês antes do aniversário, mas né?).

Então dia 25 veio e, ao que tudo indica, saiu mesmo desatando alguns nós. Um frila muito legal, uma entrega que eu estava esperando desde semana retrasada, aluna precisando de mais aulas, faxineira que tinha saído e resolveu voltar... Tô botando fé.