Fui assistir, no fim de semana, à peça Dona Flor e Seus Dois Maridos – baseada no romance de Jorge Amado – com Carol Castro, Marcelo Farias e Duda Ribeiro. A peça é, como eu já tinha ouvido falar várias vezes, ótima. Figurinos, cenário, sotaque baiano dos atores – maioria carioca – e até o vídeo que introduz a peça, tudo muito bem produzido. O riso vem natural e, às vezes, compulsivo, como na cena em que Teodoro (Duda Ribeiro) vai à casa de Flor (Carol Castro) pedi-la em noivado. Também há as pitadas de drama, como na morte de Vadinho (Marcelo Farias). Morreu no Carnaval, de cachaça e vadiagem, vestido de baiana.
Enfim, definitivamente uma peça para ser vista. Mas fiquei mais interessada na história de Dona Flor. Uma mulher séria, direita, trabalhadeira e de princípios. Ainda assim, uma mulher cheia de desejos – como todas, aliás. Casa-se com Vadinho, pilantra vagabundo e ótimo amante. Com a morte desse primeiro marido, se vê obrigada a superar o luto e se casa uma segunda vez, com o sério e cerimonioso farmacêutico Teodoro. Porém, se com o primeiro ela era infeliz, mas satisfeita, Flor agora é uma mulher infeliz e insatisfeita.
É para resolver esse problema que o espírito de Vadinho volta, para satisfazer Flor nos quesitos em que Teodoro não é capaz. Não é facilmente que a moça aceita a situação, mas há que se dizer que Vadinho é um mestre na retórica. Convence Flor de que ele e Teodoro não são adversários, mas sim “colegas”. Ambos casados com ela no papel e na Igreja, com igualdade de direitos. O golpe de misericórdia é o monólogo final, lindo, em que Vadinho finalmente convence Flor de que ela nunca será plena somente com um dos dois maridos. E ela cede, apaixonadamente.
Saí da peça imaginando a vida feliz de Dona Flor, com seus dois maridos. Teodoro é o perfeito companheiro, sério, leal, preocupado com o bem estar da esposa e provedor da casa. E Vadinho se ocupa da “vadiagem”, parte igualmente importante. Tem a única – mas não menor – função de satisfazer Flor em seus desejos mais viscerais, completando o cenário de felicidade plena daquela mulher que tem como ambição ser completa.
A peça, mais que entretenimento, “mi ha fatto un colpo”. Um golpe fulminante, que inseriu em mim um pensamento, aliás, um sentimento que não tenho conseguido abandonar: toda mulher merecia ser Dona Flor.
Para quem junta aquele monte de coisinhas em seus armários físicos, mentais, sentimentais. E para organizar meu próprio armário, que guarda mais e mais coisas a cada dia.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
A fuga
Era de noite, e estávamos – mamãe, papai e eu – no carro, indo não sei para onde. Como de costume, meu pai se perdeu no caminho e fomos parar em um beco escuro e deserto. Meu pai foi fazer o retorno em um lote vago, quando nós fomos cercados por um bando de homens mal encarados e armados – não vi direito com o quê, mas sabia que não eram armas de fogo. Na mesma situação que a gente estava um outro homem, mais ou menos da idade do meu pai.
Como esse outro homem havia chegado primeiro, os homens mal encarados resolveram acertar logo com ele. Mandaram o homem sair do carro e foram dando safanões nele até ele chegar em um canto do lote, longe do carro. Meu pai também saiu do nosso carro, mas os homens mal encarados o mandaram esperar. Meu pai estava perto da saída, ao lado do carro do homem.
Não sei direito por que, o homem que estava sozinho começou a se agitar e os homens mal encarados também. Começou uma gritaria, um corre-corre e alguns safanões no homem sozinho. Nessa hora, vi meu pai olhar para o carro do homem sozinho. Falei “Mãe, troca de lugar que meu pai vem pra cá”. Mas aí vi que meu pai ia para o outro carro e gritei: “Mãe, dirige este carro! Vai!”
Meu pai correu para o carro do homem sozinho, que estava com as portas abertas e a chave na ignição. Bateu a porta e arrancou com força. Minha mãe venceu o torpor e arrancou nosso carro também com força, quase atropelando um dos homens mal encarados – este usava chapéu e parecia ser o chefe da gangue. Quase fomos pegas na troca de marcha, mas conseguimos fugir. Paramos mais na frente, com os olhos arregalados, a boca seca e o coração querendo sair do peito. Meu pai estava logo à nossa frente, também são e salvo, no carro do outro homem.
Quando acordei, o vento – que soprou forte a madrugada inteira – assoviava na janela e fazia o telhado da casa velha do vizinho bater fazendo barulho. Outros barulhos – de cidade abandonada – também eram obra desse vento do qual eu não gosto. Fiquei grata por ter sido um sonho ruim, mas o aperto no peito ainda mora aqui temporariamente.
Como esse outro homem havia chegado primeiro, os homens mal encarados resolveram acertar logo com ele. Mandaram o homem sair do carro e foram dando safanões nele até ele chegar em um canto do lote, longe do carro. Meu pai também saiu do nosso carro, mas os homens mal encarados o mandaram esperar. Meu pai estava perto da saída, ao lado do carro do homem.
Não sei direito por que, o homem que estava sozinho começou a se agitar e os homens mal encarados também. Começou uma gritaria, um corre-corre e alguns safanões no homem sozinho. Nessa hora, vi meu pai olhar para o carro do homem sozinho. Falei “Mãe, troca de lugar que meu pai vem pra cá”. Mas aí vi que meu pai ia para o outro carro e gritei: “Mãe, dirige este carro! Vai!”
Meu pai correu para o carro do homem sozinho, que estava com as portas abertas e a chave na ignição. Bateu a porta e arrancou com força. Minha mãe venceu o torpor e arrancou nosso carro também com força, quase atropelando um dos homens mal encarados – este usava chapéu e parecia ser o chefe da gangue. Quase fomos pegas na troca de marcha, mas conseguimos fugir. Paramos mais na frente, com os olhos arregalados, a boca seca e o coração querendo sair do peito. Meu pai estava logo à nossa frente, também são e salvo, no carro do outro homem.
Quando acordei, o vento – que soprou forte a madrugada inteira – assoviava na janela e fazia o telhado da casa velha do vizinho bater fazendo barulho. Outros barulhos – de cidade abandonada – também eram obra desse vento do qual eu não gosto. Fiquei grata por ter sido um sonho ruim, mas o aperto no peito ainda mora aqui temporariamente.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Tão óbvio
Depois de uma manhã de muita, mas muita briga com a Vivo por causa de uma conta errada, saí para o almoço. No restaurante, sentei em uma mesa ao lado de duas pessoas – homem e mulher – que pareciam ser colegas de trabalho. Ela, muito natural, falando de uma relação recém terminada. Ele, olhando intensamente no fundo dos olhos dela, com a mão quase na mão dela em cima da mesa e participando muito interessadamente na conversa.
Eles falavam muito baixinho, mas consegui ouvir ele perguntando “Mas você acha que terminou mesmo?” com ares desinteressados, mas que escondiam uma grande esperança. Ela, alheia ao que provocava na cabeça dele, falava que ele tinha cílios lindos e declarava que, um dia, ainda faria implante (sim, isso existe). E ele respondia que não sem palavras.
O problema é que ela via nele um amigão. E ele via nela “a nora que mamãe queria”. Vi que ela nunca iria entender daquele jeito. Fiquei aflita. Terminei de comer rápido, peguei meu brigadeiro, levantei da mesa e vim para o trabalho, imaginando que futuro terá essa história.
Eles falavam muito baixinho, mas consegui ouvir ele perguntando “Mas você acha que terminou mesmo?” com ares desinteressados, mas que escondiam uma grande esperança. Ela, alheia ao que provocava na cabeça dele, falava que ele tinha cílios lindos e declarava que, um dia, ainda faria implante (sim, isso existe). E ele respondia que não sem palavras.
O problema é que ela via nele um amigão. E ele via nela “a nora que mamãe queria”. Vi que ela nunca iria entender daquele jeito. Fiquei aflita. Terminei de comer rápido, peguei meu brigadeiro, levantei da mesa e vim para o trabalho, imaginando que futuro terá essa história.
domingo, 23 de maio de 2010
Grown up stuff
Você sabe que está virando gente grande quando:
- Tem e-mail corporativo;
- a empresa onde você trabalha manda fazer cartões de visita para você;
- tem cartão de vale-refeição;
- participa de reuniões de trabalho e não são dos grupos da escola/universidade;
- deixa de ir a algum evento social no fim de semana porque tem que arrumar a casa;
- compra jogo de toalhas, panos de prato, bandeja de café da manhã e afins para a sua casa;
- é convidado para ser padrinho/madrinha de casamento;
- contrata um plano de previdência privada;
- começa a pensar em investir em ações;
- suas compras de supermercado têm mais itens da cesta básica do que cervejas e chocolates.
Conhece outros indícios? Conte-me que eu incluo na lista com prazer.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Tal mãe...
A gente estuda, se esforça, faz faculdade, frequenta outros meios, procura se envolver com gente inteligente mas às vezes, não tem jeito, a herança genética vem à tona.
Minha mãe é, de longe, a pessoa mais distraída que eu conheço. Ela já colocou leite condensado no estrogonofe achando que era creme de leite e comete umas gafes horrorosas pela falta de atenção. Gafes, assim, do tipo chamar o cachorro pelo nome do dono (aconteceu ontem. Algumas vezes).
******
Dia desses, era uma quarta-feira, foi aniversário de uma prima e ela resolveu comemorar no dia mesmo, em uma pizzaria. Coincidiu com o período em que eu estava trocando de emprego e tirei uma semana para resolver uma série de pepinos.
No dia, acordei lembrando do aniversário e incluí a compra do presente na lista de afazeres – e essa história não vai acabar no “no fim, esqueci de ligar para ela”. Procurei alguma coisa com a cara dela, escolhi o presente com cuidado e tinha certeza de que ela iria adorar.
Lá pelas 17:30 (o evento estava marcado para as 19:30) já comecei a me organizar para sair, levando Otelo pra passear. Ao chegar, tomei um banho; sequei meu cabelo com o secador – coisa que não faço nunca; vesti uma salopete com meia-calça e bota porque o dia estava meio friozinho e passei até uma maquiagenzinha no rosto. Preparei o kit-saída para o Otelo (brinquedos com petiscos dentro, para ele não chorar na hora que eu saio), passei a mão na bolsa, lembrei de pegar o presente e fui abrindo a porta, pensando “Uai, gente, cadê a chave do... carro...”
Antes de concluir o pensamento, lembrei: a chave do carro estava, junto com o próprio, na oficina, onde eu o havia deixado dois dias antes. Sem dinheiro para o taxi, não fui. Herança genética é uma merda.
Minha mãe é, de longe, a pessoa mais distraída que eu conheço. Ela já colocou leite condensado no estrogonofe achando que era creme de leite e comete umas gafes horrorosas pela falta de atenção. Gafes, assim, do tipo chamar o cachorro pelo nome do dono (aconteceu ontem. Algumas vezes).
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Dia desses, era uma quarta-feira, foi aniversário de uma prima e ela resolveu comemorar no dia mesmo, em uma pizzaria. Coincidiu com o período em que eu estava trocando de emprego e tirei uma semana para resolver uma série de pepinos.
No dia, acordei lembrando do aniversário e incluí a compra do presente na lista de afazeres – e essa história não vai acabar no “no fim, esqueci de ligar para ela”. Procurei alguma coisa com a cara dela, escolhi o presente com cuidado e tinha certeza de que ela iria adorar.
Lá pelas 17:30 (o evento estava marcado para as 19:30) já comecei a me organizar para sair, levando Otelo pra passear. Ao chegar, tomei um banho; sequei meu cabelo com o secador – coisa que não faço nunca; vesti uma salopete com meia-calça e bota porque o dia estava meio friozinho e passei até uma maquiagenzinha no rosto. Preparei o kit-saída para o Otelo (brinquedos com petiscos dentro, para ele não chorar na hora que eu saio), passei a mão na bolsa, lembrei de pegar o presente e fui abrindo a porta, pensando “Uai, gente, cadê a chave do... carro...”
Antes de concluir o pensamento, lembrei: a chave do carro estava, junto com o próprio, na oficina, onde eu o havia deixado dois dias antes. Sem dinheiro para o taxi, não fui. Herança genética é uma merda.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Esta é digna da Marcela*
Entrevista de emprego. Ela esperava na sala para ser atendida pela mulher do RH da empresa, depois de já ter feito teste de raciocínio verbal, raciocínio numérico, raciocínio espacial e de ter escolhido, dentre 190 pares de frases, as que diziam mais sobre ela.
A mulher do RH entrou na sala, sentou e começou as perguntas. Natural de onde, mora com quem, tem irmãos...
- Você namora?, perguntou a mulher, seguindo o protocolo das entrevistas de emprego de hoje em dia
- No momento, não.
- E quando terminou seu último relacionamento?, insistiu a do RH
- Na verdade, ontem.
- É mesmo? Quanto tempo durou?, quis saber ainda a entrevistadora.
Ela, então, cruzou as pernas para o outro lado, abriu a bolsa e tirou dela uma cigarreira de metal. Abriu, puxou um cigarro, que colocou na boca, ignorando os sinais de “Proibido fumar” da saleta. Acendeu, deu uma tragada longa e prendeu o fôlego antes de responder à pergunta. Soltou lentamente a fumaça e, só então, olhou para a mulher do RH, que já a olhava com os olhos arregalados. Respondeu lentamente, saboreando cada palavra:
- Três intensas e longas horas.
*Saiba quem é Marcela aqui.
A mulher do RH entrou na sala, sentou e começou as perguntas. Natural de onde, mora com quem, tem irmãos...
- Você namora?, perguntou a mulher, seguindo o protocolo das entrevistas de emprego de hoje em dia
- No momento, não.
- E quando terminou seu último relacionamento?, insistiu a do RH
- Na verdade, ontem.
- É mesmo? Quanto tempo durou?, quis saber ainda a entrevistadora.
Ela, então, cruzou as pernas para o outro lado, abriu a bolsa e tirou dela uma cigarreira de metal. Abriu, puxou um cigarro, que colocou na boca, ignorando os sinais de “Proibido fumar” da saleta. Acendeu, deu uma tragada longa e prendeu o fôlego antes de responder à pergunta. Soltou lentamente a fumaça e, só então, olhou para a mulher do RH, que já a olhava com os olhos arregalados. Respondeu lentamente, saboreando cada palavra:
- Três intensas e longas horas.
*Saiba quem é Marcela aqui.
sábado, 10 de abril de 2010
De Coalhados Dies
Ontem foi a festa de formatura da Lu, da Sula e do Otavio, que se formaram em uma das turmas mais legais da Comunicação nessa nossa geração de Fafich. Como em toda festa de formatura que se preze, teve banda - claro. E a banda era bem performática (leia-se: tinha dançarinos de axé vestidos de colegial dançando Grease com as dançarinas de vestido brilhoso e um tiozinho que encarnou o policial em YMCA).
Terminada a leva das músicas Anos 60, o vocalista - devidamente vestido com sua indumentária calça coladinha, camiseta coladinha e suspensório - deu o famigerado grito:
- Quem gostou faz barulhoooo!!!, ao que muitas pessoas responderam entusiasmadas.
Lembro de, nessa hora, ter pensado "Ainda bem que tem gente que faz isso por mim, assim a gente evita um momento constrangedor na festa", enquanto colocava meu copo de maracujança já vazio em cima da mesa.
Terminada a leva das músicas Anos 60, o vocalista - devidamente vestido com sua indumentária calça coladinha, camiseta coladinha e suspensório - deu o famigerado grito:
- Quem gostou faz barulhoooo!!!, ao que muitas pessoas responderam entusiasmadas.
Lembro de, nessa hora, ter pensado "Ainda bem que tem gente que faz isso por mim, assim a gente evita um momento constrangedor na festa", enquanto colocava meu copo de maracujança já vazio em cima da mesa.
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