sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Manifesto: Parem com as buzinas!

O negócio é o seguinte: eu não sou uma gostosa. Eu não sou daquelas mulheres lindas, com uma bunda enorme e incrivelmente redonda, nem com peitos espetaculares, nem de cintura fina. Também não sou super alta e chamativa. Sou uma mocinha comunzinha, baixinha, meio gordinha, normalmente ando de rabo-de-cavalo por aí. Nada demais. Mesmo. De verdade. Mas não há um único dia da minha vida que um carro não buzine para mim ou que um energúmeno venha me falar uma babaquice qualquer.

Todos os dias, eu saio para passear com o Otelo (meu cão) de manhã e à noite. E, em ambas as ocasiões, tenho que aturar nêgo palhaço enchendo meu saco. Hoje pela manhã, em um passeio de cerca de quarenta minutos, foram doze (DOZE) carros que buzinaram. Ontem à noite, caí na besteira de passar na frente de um bar e as vozes se confundiram, mas consegui identificar o famoso “nussssassinhora!” e o “que delícia, hein!” Na terça, fui obrigada a ouvir de um velho sem respeito a cantada do “seu cachorrinho tem telefone?” (sim, estamos em 2011 e essa ainda é aplicada). Fim de semana passado, fui abordada por dois caras em um carro, que me perguntaram “Hoje é seu aniversário?”. Respondi que não balançando a cabeça. “Mas você tá de PARABÉNS!”* foi o que ouvi em seguida. Isso porque eu nem vou entrar no mérito dos olhares para minha bunda (que, lembrando, não tem nada de sensacional).

Deve ter gente aí achando que eu deveria me sentir lisonjeada. Mas, não, galera! Longe de serem flattering, esses “galanteios” são ofensivos. Além de chatos (bagarai). Para quem ainda não parou para pensar nisso, mulher não é vitrine, que todo mundo pode comentar livremente e, eventualmente, cobiçar o que vê. E, para quem ainda tem dúvida, eu afirmo: mulher não gosta de ser cantada na rua. É uma afirmação categórica, clara, objetiva e universal. Não pense que não se pode generalizar, porque algumas gostam. Realmente, algumas podem gostar (e ouso dizer que essas precisam dar uma passada no psicanalista pra ver issaê), mas elas não são a regra e não devem ser encaradas como tal.

Outro dia, perguntei no Twitter o que pensa um cara que mexe com mulher na rua. E a resposta veio neste link (as legendas estão em Espanhol, mas acho que dá para entender bem). Como quem me mandou a resposta foi o Tyler Bazz, cara muito inteligente, tenho certeza de que ele estava brincando e não acredita realmente nisso. Agora, pensando na média do povo por aí, até posso acreditar que esse argumento (“não conseguimos pensar em nada melhor para chamar a atenção das mulheres”) seja verdade.

Sei que, na maioria das vezes, não adianta somente apontar o problema. É preciso sugerir soluções. Assim, para aqueles que ainda não conseguiram pensar em nada mais eficaz do que a famosa buzinadinha ou a cantada cretina, vou ensinar um truque que funciona em grande parte das vezes: converse que nem gente. Esse é o melhor jeito de pegar alguém – vale tanto para homens quanto para mulheres. É claro que você – homem – vai encontrar muita mulher bitchy por aí. Blame it on your fellas babacas, que geraram uma postura defensiva em muitas moças. Mas você vai se surpreender com a quantidade de gente de quem vai conseguir se aproximar. Todo mundo gosta de uma pessoa interessante, divertida e que sabe levar uma conversa gostosa. Agora, se você não tem conteúdo para segurar uma conversa, aí já são outros 500, né, migue.

Encerro este manifesto com um convite: se você também compartilha deste meu pensamento, divulgue esta ideia.

E parem com as buzinas. Porra.



* Essa até foi engraçada e os caras não estavam realmente me cantando, porque logo depois arrancaram com o carro às gargalhadas. E senso de humor conta pontos positivos. Mas está aqui para exemplificar o tipo de coisas que circulam por aí.

8 comentários:

Anônimo disse...

doze buzinadas? será que o problema e realmente dos doze que buzinaram p vc ou vc tava dirigindo meio mal?

Kel Sodré disse...

Amado, eu estava a pé. Não passeio com o cachorro de carro. Beijos.

Aline disse...

Sério que o anonimo fez uma piada né? Ou então ele tá aí na lista dos que buzinam, pode apostar.

Òtimo texto.

Renata Gibson disse...

faço academia do outro lado da rua. é, é só atravessar a rua e pronto, tô lá. ainda assim, evito sair em horário de trânsito intenso, pq não aguento as "manifestações", nem mesmo as silenciosas.

quando eu tinha uns 14, 15 anos, comecei a usar calças masculinas, pra pararem de me cobiçar na rua. deu certo por um tempo, até que eu decidi que não podia limitar minha vida por conta de outras pessoas...

vc fala no início do post que não tem um corpo maravilhoso, perfeito, e que mesmo assim, mexem contigo. acho que a questão não é essa... então as mulheres que foram abençoadas com um corpasso podem ser olhadas, cantadas, incomodadas? - sei que não foi isso o que vc quis dizer, mas é bom deixar claro...

bom, esse assunto também me incomoda muito e eu realmente espero que essa situação melhore... apesar de eu não conseguir ver a tal luz no fim do túnel.

Kel Sodré disse...

Aline,

se foi piada ou não do Anônimo, eu não sei. E o comentário foi tão cheio de preconceitos (a começar pela velha sugestão de que eu - mulher - estivesse dirigindo mal) que preferi nem entrar no mérito da questão, porque esse assunto rende...

Kel Sodré disse...

Gibson, pra deixar mais claro ainda o que eu quis dizer, explico: é claro que as mulheres que foram abençoadas (ou que se esforçaram muito para) com um corpo escultural não podem ser assediadas também. Assumir isso, seria como aceitar a teoria de que a culpa do estupro é do short curto e não do estuprador. Porém, fiz questão de ressaltar que eu não sou uma dessas gostosonas justamente para eliminar esta hipótese, de que os homens mexem comigo porque eu "dou motivo".

Concordo com você que a gente não pode ficar limitando a própria vida em função dos incivilizados que não sabem o que é respeito. A luz no fim do túnel eu vejo, mas ela tá do tamanho de uma estrela - ou seja, lá beeem longe! De qualquer forma, acho que a gente começar a reclamar e deixar claro que não gosta desse tipo de atitude já é um primeiro passo.

lívia disse...

É, Kel, eu gostaria de fazer a mesma observação que a Renata fez... Mesmo se a mulher for a... sei lá... Sheila Melo (eleita a mais gostosa pela VIP por anos consecutivos) ela não "deu licença" pra levar cantada. Nem se ela tiver com um vestido do tamanho de um cinto!

Kel Sodré disse...

Lívia, como eu coloquei na minha resposta à Gibson, eu concordo em gênero, número e grau com vocês. Também acho que, admitir que as gostosas podem ser cantadas é o mesmo que admitir o estrupro em mulher de roupa curta. Mais uma vez, reitero que eu fiz questão de frisar que não sou uma gostosa para tirar esse argumento do texto. Para ninguém falar coisas do tipo "ah, mas também ela deve ter uma bunda do tamanho de um bumbo". Não, não tenho. E MESMO ASSIM ouço mil impropérios diariamente! Agora, imagina as que, de fato, têm a bunda do tamanho de um bumbo, como não sofrem??