domingo, 13 de novembro de 2011

It Might Be You (ou Todos os Domingos da Minha Vida)

“Wondering how they met and what makes it last
If I found the place
Would I recognize the face?
Something's telling me it might be you
Yeah, it's telling me it might be you”

Ele vinha cantarolando a caminho de casa no domingo, já quase hora do almoço. Já estava na casa dos 70. Já não tinha mais a cabeleira que costumava usar. Na verdade, os poucos cabelos que restavam, na lateral e parte de trás da cabeça, estavam quase todos brancos. Também estava branca a barba, comprida. Continuava magro. E não abandonava a camisa xadrez de azul e branco, a calça jeans desbotada e o tênis.

Em uma mão, tinha uma sacola retornável e na outra segurava o celular. Era o celular que prendia sua atenção enquanto caminhava e cantava – bem afinadinho, apesar de não se esforçar para tal. Na telinha pequena, o envelopinho mostrava que havia recebido mensagem. Era ela, perguntando se ele já estava chegando com a batata palha e a gelatina sem sabor.

Cantarolando e respondendo à mensagem (“já saí da padaria. Por que, quer que volte para mais alguma coisa?”), pensou em quem estava em casa à espera. Ela, os três filhos – 35, 31 e 28, respectivamente – e os netos. Ele tinha netos! Três! Mas a caçula ainda morava em casa – “o dia que ela sair...”, pensou com uma pontinha de pesar. Será que eles já haviam chegado ou ela o estava apressando à toa?

Uma coisa leva à outra e ele se lembrou de coisas de mais de quarenta anos atrás. Ela não era a mais bonita. Nem a mais popular. Nem a família dela tinha dinheiro. Mas que inteligência! Que senso de humor! Que cabeça moderna para os anos ’50! Todas aquelas ideias sobre a igualdade entre os sexos, sobre a independência feminina, sobre vivermos do jeito que quisermos e não do jeito que esperam que vivamos. Era feminista, ora essa! E ele adorava. Nunca havia conhecido uma mulher tão decidida, tão confiante, tão divertida. Foi impossível não se apaixonar por tudo aquilo.

Também foi difícil aprender a conviver com tudo aquilo. Foi difícil aceitar que algumas tarefas da casa seriam dele; difícil aceitar que, sim, ela continuaria dando suas aulas; muito difícil aceitar ter tido que esperar até os 38 anos de idade para o primeiro filho, já que ela ainda queria terminar o mestrado antes de ser mãe. Mas cada aprendizado era um laço a mais que se atava entre os dois. Cada obstáculo vencido indicava que estavam fazendo um bom trabalho na empreitada que escolheram de ser uma família.

Ainda cantarolando, chegou em casa. O filho do meio já havia chegado com a esposa. A caçula – era a cópia da mãe! – terminava o livro em que estivera agarrada nos últimos dois dias. Ela – esposa, mãe, mulher, pessoa complexa mas de desejos simples – apareceu na porta da cozinha e olhou para ele por trás dos óculos com aquele ar apressado de sempre. “Traz a gelatina aqui, senão essa mousse não vai endurecer!”

Levou a sacola até a cozinha. Olhou em volta. Sentiu o cheiro da casa, das suas coisas, da sua vida. Reconheceu toda a sua história naqueles segundos. Provou um sentimento de pertença que não sabia o que era desde as lutas contra a ditadura na juventude. Olhou para ela e teve certeza, mais uma vez, de suas escolhas.

“Something’s telling me it might be you
Yeah, it’s telling me it might be you
All of my life”




3 comentários:

Rafael Sette Câmara disse...

Muito, mas muito mesmo, bonito seu texto. Me emociono com essas histórias - sou meio chorão, não conta pra ninguém, tá!
E realmente melhorou minha segunda de não feriado! =)

Kel Sodré disse...

Ieeeeyy!! Obrigada! :-D

A parte do senhor cantarolando a música é verdade. Toda a história da vida dele é fruto da minha imaginação, que ficou borbulhante com aquela figura cantarolando It Might Be You num domingo de manhã, tão absorto nos seus próprios pensamentos.

Cro disse...

Kel, não conhecia seu blog e adorei ser apresentada a ele nesse texto lindo! Beijos